domingo, outubro 14, 2018



O MESSIANISMO ÀS AVESSAS NAS ELEIÇÕES DE 2018

No Brasil, durante as duas últimas décadas do Segundo Império, e depois no período da “Velha República”, o Nordeste foi cenário de movimentos populares de cunho religioso. O primeiro foi chefiado pelo beato Antonio Conselheiro, o segundo pelo líder religioso e político Padre Cícero. Canudos e Juazeiro do Norte entraram na história como focos de resistência ao estabilishment. Embora Canudos tenha sido dizimada e diminuída do mapa, Juazeiro continua se perpetuando como “Cicerópolis”. Tal denominação repercute a figura sempre pujante do Padre Cícero como sinônimo de resistência à ordem eclesiástica impetrada contra o fenômeno que se confunde com a própria história da cidade: o milagre da hóstia ensanguentada da Beata Maria de Araújo.

Dando um salto no tempo para a atualidade, o Nordeste, mais uma vez se mostrou como campo de resistência político, ou pelo menos se confronta com o cenário de forças fascistas que se avizinham. Enquanto isto, no resto do país, com exceção do Norte, vemos se constituindo um messianismo às avessas. No lado de cá do Nordeste temos as figuras do Padre Cícero e Beata Maria de Araújo que ousaram a ordem estabelecida de seu tempo –, a beata especialmente, mesmo em sua condição de mulher, analfabeta e negra, foi uma mística que não se rendeu integralmente aos poderes das instituições, especialmente à Igreja.

No restante do país, temos a geração de um Messias alucinado por poder, postulando atuar com as forças políticas e econômicas (afinado às forças militares) ao desmantelo da nação. Ele se utiliza do apelo popular de “salvador da pátria”. O novo Messias até se acha como autêntico líder messiânico, mas lhe acrescentaríamos o adjetivo “fascista”. Maria Isaura Queiroz já dizia em 1965 que os movimentos ditos “messiânicos” se caracterizam como movimentos populares que têm como fulcro um indivíduo que se acredita possuidor de atributos sobrenaturais e que profetiza catástrofes das quais estarão salvos apenas os seus seguidores.

Imaginemos que um líder “messiânico” que é homofóbico, machista, beligerante e castrador de direitos sociais queira agora encarnar o papel de “salvador”! No mínimo ele admira a todos os estados totalitários e a todos os líderes fascistas da história. Esse mesmo Messias é defensor da ditadura, ele diz: “O erro foi torturar e não matar”. Este é o Messias que o povo votou para o segundo turno das eleições. Quem vota nele?

Vota nele quem acredita em escola sem partido, quem acha que a perversa concentração de renda em nosso país será equilibrada com a bandeira do moralismo (ou melhor, do falso moralismo). Não sabemos a que destino o Messias da Bíblia vem sendo confundido com o controverso Messias fascista. Afinal, quem vai diminuir o Estado com a venda das estatais não será Saulo, mas sim o Paulo – seu apóstolo mais devotado...

Os atributos “sobrenaturais” do novo Messias manifestam-se para aqueles que creem em sua “missão” para a nação. Para tanto, seu slogan de campanha “Brasil acima de tudo” evoca uma das frases mais repetidas na Alemanha de Hitler:  "Deutschland über alles", que quer dizer "Alemanha acima de tudo". O slogan completo ainda faz evocação “divina”: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. O fato de querer divinizar não o torna mais injurioso do que o de querer aplacar a clara inspiração neonazista deste slogan. Supõe-se um acinte à sanidade mental e aos princípios essenciais da democracia. Afinal, qualquer referência de superioridade torna-se perigosa, e por certo terrivelmente preocupante, quando os matizes neonazistas tocam o discernimento e denotam subestimação à inteligência histórica. Pois se nos livramos do mal do século XX foi porque a sociedade ocidental se afastou de todos os totalitarismos; sabemos que eles não funcionam para o bem comum, seja o nazismo, o fascismo, o cesarismo, qualquer autocracia, teocracia ou ditadura.

Mas o Messias ainda profetiza catástrofes. Ele se diz ser o próprio salvador. Isto nos lembra o filme Matrix, no qual o protagonista Neo descobre que vivemos num mundo de ilusões e de factoides. O Messias cria aos seus seguidores essa falsa imagem de uma realidade brasileira. Sabemos, aliás, de qual realidade ele protege e tem como aliada: o neoliberalismo, o Estado mínimo, o domínio das massas, o tecnicismo, o armamentismo, a militarização, o controle social com direito ao terror e à alienação das massas. Este não é o Brasil que queremos. Este Brasil, nunca mais!

Por tudo dito, voto no PT no segundo turno, mesmo que não tenha sido minha opção no primeiro. Como bem refletiu o artista Pedro Cardoso: “Eu vou votar no PT pra no dia seguinte fazer oposição ao PT (...) acho que o PT não deveria ir ao poder (...) outras forças deveriam ter se organizado; entretanto a única força que se organizou de forma eficiente foi o fascismo de Messias. E contra o fascismo de Messias provavelmente não será possível fazer oposição, porque o fascismo não tolera opositores, o fascismo silencia, cala e mata opositores (...)”. Voto contra o falso Messias, porque devemos garantir um Brasil para o futuro sem ameaças de qualquer forma de preconceitos e abuso de poderes; um país sem censuras, sem mordaças; um povo que seja a superação de seu passado e não a ameaça de seu futuro. A pior alienação é acreditar na utopia denominada Messias. Para ele só resta a distopia de uma Matrix messiânica.

Do meu lugar de fala, digo: Salve Juazeiro, Canudos! O Nordeste tornou-se independente nestas eleições. Que o Brasil não vire mar, nem o mar vire Brasil. Senão o nosso país torna-se-á uma ilha fascista num mar de ilusões e de retrocessos.

-- Glauco Vieira, geógrafo e artista

sexta-feira, maio 18, 2018

des-olhado


“des-olhado” - texto sobre a exposição

escala tonal, é ir do mais ao menos, trabalhar com gradações, com limites nem não simples de enxergar. A cidade, os lugares, objetos e pessoas que surgem no ensaio de Vieira estão nesses interstícios, onde os tons por vezes se misturam, se alargam – e, para não perder o hábito da dúvida, a cidade cabe nessa escala? Parece-me que a ideia de urbe é tencionada, ganha outros ares, até mesmo cria outras escalas em seus trabalhos de viragem de cor – porque cidade é expansão.
o ato de alargar pode se confundir com o de inscrever: com a fixação-mistura de cores, com a sobreposição de imagens – ele constrói sua cidade –, com personagens grafados nas tramas do papel, como pichos pela cidade em seu espaço de trân(e)sito – visual. Por sua vez, a cidade vista em sobreposições é gravada em uma superfície que não comporta dicotomias, nem segregações. Porque cidade é diminuir distâncias.
em variadas gradações tonais a cidade se desmonumentaliza e torna-se da ordem do percebido, do que se mostra como detalhe...“percebo esse trabalho como uma forma de grafar imagens...é como se tivesse nos muros da cidade”, assim me relatou o fotógrafo que, ao não levantar esses muros, ora enxerga por cima-além deles, ora os tira e põe horizontes – porque cidade é ver longe.
assim, ele propôs outra medida para a cidade: dada pela dimensão da experiência, de ser um viajante e andarilho em seu próprio lugar. Interferindo nos escritos de Calvino com a liberdade de quem tem o livro aberto em cima da mesa, diria das imagens aqui ao redor que quem comanda a narração é o olhar.
assim acho que Glauco se des-ver

segunda-feira, dezembro 26, 2016

S.O.S. SANEAMENTO BÁSICO EM JUAZEIRO DO NORTE [I]


Os esgotos a céu aberto em Juazeiro do Norte, lamentavelmente, já estão naturalizados na paisagem da cidade. E neste período em que se avizinham as chuvas, o cenário tende a piorar. Não somente pelas doenças decorrentes da estação chuvosa por vir, das águas que passam a se acumular em inúmeras valas e centenas de buracos espalhados nas principais vias da malha urbana, mas também pela dificuldade de mobilidade no espaço público, decorrente desse transtorno ambiental.

Saneamento é algo essencial para a vida nas cidades. É algo realmente “básico”. Não dá para ficar pulando de poças e tapando o nariz aos miasmas insuportáveis das lamas e mini lagos de esgotos superficiais. Não se admite nos tempos atuais o descaso das gestões municipais de infraestrutura urbana. É um ato perverso contra o cidadão fechar os olhos para tal situação. Não estamos mais no tempo da história quando a humanidade desconhecia sobre as condições mínimas de salubridade nas urbes. Com as devidas ressalvas de controle e disciplinamento social, desde o final do século XIX, entretanto, as políticas de higienização das grandes cidades tinham como medida prioritária a construção das redes de esgotos sobre a cidade antiga.

Juazeiro encontra-se doente há muitas décadas. Uma doença ambiental crônica. E, incrivelmente, apesar das reclamações constantes da população, não há determinação política para sanar de vez esta calamidade. Toda cidade cresce, porém nem toda cidade deve expandir-se carecendo de itens básicos para um meio de vida digno aos cidadãos. Somente uma iniciativa conjunta: população cobrando de um lado e gestão municipal cumprindo seu papel do outro, teremos uma reviravolta na saúde ambiental da cidade.

O problema aumenta a cada ano. Sabe-se de indícios de contaminação da água e do solo pela falta de ligações à rede coletora de esgotos. O município de Juazeiro possui uma cobertura de esgotamento sanitário em torno de 60%, porém quase a metade deste percentual representa ausência de ligações prediais à rede. A população deve também fazer sua parte. Responsabilização civil e fiscalização mais efetiva devem ser realizadas desde que o poder público se responsabilize também, adotando medidas eficazes para resolver o problema. Somente os bairros Pio XII, Pirajá, Romeirão, Centro, João Cabral, Salesianos e Vila Fátima apresentam rede interligada. Já foi divulgado na mídia: o Município está em 6º lugar no País nos indicadores negativos de saneamento.

O documentário, Bem vindo a Juazeiro do Norte (2015), de Ythallo Rodrigues, selecionado no último Cine Ceará (2016) chega em boa hora pelo estranhamento de uma cidade (re)vivida; funciona também como instrumento político para o direito à cidade. O cineasta denuncia de forma provocativa os desafios de transitar nas ruas, e ao mesmo tempo evoca o sentido de um flanar a ser recuperado a partir de um fluxo de consciência prenhe de possíveis imaginários. Envolvido por imagens poéticas que ainda resistem aos espaços de uma urbe rendida ao capital simbólico, o vídeo nos convida a experimentar uma Juazeiro que deseja alcançar o negócio do turismo a todo custo. Uma imagem da cidade é negociada como estatuto do progresso enquanto outra imagem denuncia o tempo-espaço de pertença do cidadão ameaçado pelos obstáculos depois de uma chuva caudalosa. A cidade se desmonta depois das águas.

Fica esta dica de filme! Noutra oportunidade continuaremos a clamar urgência para o saneamento básico em Juazeiro.



segunda-feira, fevereiro 17, 2014

a queda: trilogia "broken heart"

Há, por certo, três formas de perceber a queda de relacionamentos afetivos - para não dizer que o outono antecede o inverno da alma. Tais formas não são absolutas e nem definitivas, apenas mui observadas na vida real. O cinema, de forma mais sutil e ao mesmo tempo grave, anuncia essas três possibilidades de crepúsculo dos amantes ou do que sobrou dessas relações. Claro que para cada um tais finezas e rudezas irão chegar ora como alerta ora como constatação. Não caberia aqui comentar as filigranas de cada uma delas. Basta que anunciemos essas três situações como oferendas ao fervoroso cinéfilo que busca sorver também das obras fílmicas o entendimento de corações partidos. Nessa trilogia broken heart - que assim a denominamos - há intercruzamentos inevitáveis. São imbricações que se encontram na temática renitente do "e agora, que faço eu se perdi meu amor". Ou o amor é quem se lhe desencontrou. Tudo ao verso ou ao inverso, não importa, os corações um dia se dilaceram. Lembremos, entretanto, com Carl Gustav Jung a seguinte advertência: conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana. São três textos fílmicos a se comunicar com a alma humana, e que falam com muita generosidade do encontro de almas em caos. Passamos a comentar rapidamente cada um deles para, por fim, lembrar com Nietzsche que é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Vamos então aos filmes e às três formas de encarar a dor das relações em queda.

Sugiro que comecemos com Closer: perto demais (2004, Mike Nichols). Queda número hum de corações: a crueldade. Bondade e humanidade nos pés. Quatro seres que se trocam como num jogo em quatrilho. Nove cartadas, vencendo aquele que faz o maior número de vazas. A maior perversidade está no jogo das palavras. Em Closer os diálogos entre os amantes são aqueles que na vida real são omitidos em pensamentos, por isso ásperos em demasia e incrivelmente realistas. As palavras duras e cruas são instrumentos temerosos da crueldade. A colheita acabou. Ficaram as sementes ou os grãos para uma próxima estação. As ações dos personagens são previsíveis, mas imprevisíveis são as traições maquiavélicas e outros expedientes de fina arte da guerra. Cada um para um lado, vencendo (ou perdendo) o mais perspicaz.

Na seqüência, cabe a visualização de Ela (2013, Spike Jozen). Queda segunda: a solidão. É a tônica desse filme. Meia idade, homem, em quatro paredes. Lembranças boas e más da "ex". Mas predominam as boas, porque as más doem demais, são evitadas. E nessa solidão a fuga para o amor virtual, num futuro próximo, tenta preencher a alma de um carinho estranho, imaginário. O entorpecimento/obscurecimento dos sentidos. Um amor distante e ao mesmo tempo sonhador, mas esquisitamente forte e sincero: um amor com um ser cibernético, com uma inteligência artificial mui compreensiva e terrivelmente ciumenta. Até que ponto a solitude se preenche de imaginário, fazendo o coração embriagar-se ou quebrar-se completamente de torpor? A solidão provoca outras fugas. A imensidão do isolamento numa megalópole é potencializada. E perder-se nas ruas talvez seja uma outra possibilidade de se levantar da queda.

Por fim, a tríade se completa com Azul é a cor mais quente (2013, Abdellatif Kechiche). Originalmente, intitulado A Vida de Adele (La vie d'Adéle), trata da queda terceira: a indiferença. Distanciamento e frieza são sinônimos. A história é conhecida: ao se sentir sozinha na relação cai em traição, que se aproxima do paradoxo buarqueano te perdoo por te trair. A queda começa aqui, mas antes prenunciada por outros distanciamentos/desculpas: falta de afinidades, linguagem estranhada; comunicação monossilábica; precipícios em vistas. Como medir distâncias sem prejuízos; como aparar arestas sem o outro se permitir? A alma quedada busca a esperança em vão de reconquistar o paraíso perdido, o amor que mudou de lado. Como uma sideway - estrada ao lado, mas sem poder tocar-se, oblíquas, como em Paralelas de Belchior: e as paralelas dos pneus n'água das ruas são duas estradas nuas em que foges do que é teu. A apatia e o desânimo resvalam em indiferença ao suplício d'Adèle - ou dos que já sofreram tal queda.

Sei que não estou sendo nada encorajador, amiga/o cinéfila/o. Mas nestas três formas quedadas de relações vale apreciar a boa arte cinematográfica. Utilíssimo para os navegantes do amor aspirarem, apesar de tudo, novas primaveras de amor. Porém advirto que a trilha sonora de cada um dos filmes catalizam sobremaneira a dor. Caso seja muito sensível a essa mistura de música com imagens, evite assistir Closer de primeira, prefira iniciar em ordem inversa, começando com a vida de Adéle. E neste espírito de queda, Roland Barthes está presente nos três discursos fílmicos. Eles dialogam entre si: Como termina um amor? - O quê? Termina? Em suma ninguém - exceto os outros - nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

acordar

“Um dia a gente acorda, os livros nos acordam, um anjo nos acorda, e somos avisados: não adianta mais olhar para trás. É ir em frente ou nada.” Esse pensamento de Martha Medeiros é muito certo pelo menos para quem sofre de amor. Porque não adianta ter esperança que o passado resgate tudo o que foi vivido com intensidade.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

o ano termina..

.. e um ciclo inicia. Porque nada neste mundo é fixo. As transformações caracterizam os corpos nesta tri-dimensão. De humanidade, qual humanidade nos encerra seres terrenos? Altura dos desafios, comprimento da das diferenças, largura da tolerância - são dimensões da alma, espera-se.. Dois mil e treze sentidos de luta. Espero o quatorze chegar, de modo a driblar os açoites do ano terrrível; a sorver da aurora uma outra paz..


sexta-feira, agosto 17, 2012

a eternidade do instante

"De repente, compreendi que uma fotografia pode fixar a eternidade num instante." (Cartier-Bresson)

Arquivo: Henri Cartier-Bresson.jpg

domingo, janeiro 02, 2011

ruído nas imagens perfeitas

Uma nova curiosidade vem se transformando em pesquisa. A fotografia por certo auxilia a testemunharmos um mundo sempre em permanente transformação. Se antes víamos o céu sempre azul é porque não sabíamos que há milhares de cores cianas que se fundem noutros azuis e noutras matizes. Aliás, não há possibilidade de encontrar cores que se evaporam da vista sem perguntarmos a elas se estavam ou não “destinadas” a representar este ou aquele tema. Desta forma o processo em preto e branco e de outros mais antigos vêm sendo perpetuados não como uma nostálgica representação fotográfica do mundo, mas, especialmente, porque ousam recuperar novas possibilidades de representação. A banalização do registro fotográfico, a partir do aparato digital, é um fenômeno crescente, correndo o risco de normatizar o simulacro em detrimento da reflexividade das imagens.

Imagens reflexivas? Não se trata de categoria estética, nem muito menos de um conceito consolidado nas artes. Mesmo assim, a reflexividade esteve presente em várias correntes estéticas que se propunham a repensar a humanidade e suas obras. Na Idade Média, não isenta disto, havia obviamente a participação deste pensar humano mesmo que o referencial fosse a partir do dogma religioso ou da “mitologia” cristã. Nos seiscentos, mais ainda o humanismo herdado da Antiguidade soube renovar a leitura da Natureza e dos Homens. Afinal, a criatividade é inerente à inteligência humana desde que as primeiras imagens da vida puderam ser projetadas em cavernas (ou nos sonhos/imaginação). A luz é contemporânea da humanidade, assim como sua manipulação e sua reinvenção. Se há imagens perfeitas, é um foro de discussão sem fim. Há muita polêmica entre a perfeição e a invenção. Fiat Lux! Faça-se luz para que enxerguemos criticamente a realidade.

Daí nos perguntarmos se a fotografia digital desumaniza a arte. Talvez em parte, sim, muito embora tal desumanização seja também uma forma crítica de reconstruir o discurso das formas e das cores. Se por um lado o pixel é uma tentativa de representar em perfeita verossimilhança a realidade, por outro pode ser a ruptura com a reflexividade sobre as coisas, os sentimentos e os pensares que pulsam na/com a câmera em punho sob a vista perspicaz. É possível, então, unir a revolução com a tradição. Se entendermos o universo digital como revolucionário na ordem representativa e fotográfica, por outro lado os processos antigos (que continuam inovadores) igualmente fotográficos (a exemplo do Van Dyke Brown, Cianotipia etc) também constituem um ruído essencial neste espírito reflexivo da vida/morte, do homem/natureza, da paisagem/lugar, do tempo/espaço, do cosmos e do caos. Seria um absurdo pensar que a ciência busca a perfeição das imagens, quando sabemos ser igualmente insólito querer representar/experimentar a existência individual ou social com a lente única da crença absoluta dessa mesma perfeição. O poeta mineiro Dante Milano já nos advertia que é necessário ver o Céu desde o Inferno, e por isto o “ruído” seja um exercício rico entre o analógico e o digital.

Créditos da Imagem: Henrique Torres (2009) [conforme autor-fotógrafo, Quasipaisagens é uma série baseada na situação sui generis do bairro fortalezense do Serviluz e sua praia do Titanzinho. Situadas nas cercanias da zona portuária e historicamente segregadas do resto da cidade, essas belas paisagens têm, hoje, sua própria existência ameaçada por um empreendimento de indústria naval. Podem, portanto, nunca se tornar paisagens incorporadas à cidade. A captação em filme deteriorado e a impressão em marrom de Vandike me parecem corresponder bem a essa realidade.] Fonte: http://www.henriquetorres.net/quasipaisagens.html disponível em 02/01/2011.

domingo, novembro 07, 2010

galos e urubus analógicos



No caldeirão de imagens na contemporaneidade, as imagens perdidas no ar nos retornam em novas lentes. Neste périplo de regresso, volta e meia, somos conduzidos a selecionar quais formas e conteúdos resultam em novas cores, em novos gestos e em novos sentidos enquanto nos reconhecemos ser-no-mundo. Parafraseando Heidegger, ser-no-mundo é viver no mundo, cuja vivência é uma vigorosa ligação a ele. O existir testa os limites da vida. Se nos fazemos perguntas, se nos inquietamos, e se nos indagamos porquanto vivemos, é movido pelo enriquecimento do ser. Muitas imagens, na travessia do existir, nos angustiam, nos tomam pelo tédio, ou nos trazem ansiedade ou sensibilidade. Mas, misteriosamente não nos deixam ligados de forma tenue com o mundo. Pelo contrário, nos habilita a rever os sabores, os sons, os aromas, os tatos e as cores, agora com graus e amplitudes perspectivadas pela existência no mundo. Não à toa, o exercício fotográfico redescobre vidas e interlocutores.

Foi assim neste dia ensolarado. Conversar com o Jones. Sujeito possuidor de uma experimentação háptica capaz de por as montanhas da cidade em seu cinema portátil e em seu imaginário de aves e de seres míticos. Lá estava ele no calçadão da praia, sentado no mesmo banco, dando vida a seus pássaros de cartolina. Ele me conta, de trás para frente, casos curiosos, insólitos ou quiméricos sobre os fenícios, e das aparições de discos voadores nas praias; além dos acidentes aéreos, cujas narrativas ele as registra em desenho animado e depois as projeta em uma espécie de luneta mágica. Imagino o desafio de Jones, não só pela sobrevivência, mas pela sua ousadia em existir no mundo na autenticidade de seus galos, urubus e borboletas de papel. As asas desses bichos giram qual cataventos, enquanto desacelero o tempo de exposição da câmera fotográfica, e deixo demorar a entrada de luz na película.

Pensei em tirar uma foto de nosso protagonista, mas continuei ajustando a câmera. Comecei a vê-lo pela borboleta amarela recém-nascida, quando depois a deixava mover as asas pendidas a uma haste de arame. Aquele movimento indeciso da Lepidoptera, ensaiando vôo, fazia deliciar o artista, devolvendo o riso e olhos encantados como uma criança descobrindo o mundo. A câmera seguiu a borboleta e os pássaros. Tantas asas girando assim fez difusa a paisagem atrás.

quinta-feira, outubro 14, 2010

O Golem leperino e a nostalgia de um futuro perdido

A apreciação da obra de arte passa por uma experiência sensível conforme as referências que possuímos do mundo. Minha referência também é somada com as impressões do espaço do subúrbio de uma cidade em processo de metropolização. É o meu lugar de fala, ou de marcas do experienciado. Não importa nesta reflexão qual localização ela participa no mapa múndi, embora seja essencial a especificidade que a vida mental - no dizer de Georg Simmel -, participa de meu encontro com a obra de Christian Leperino.

Naquela urbe que vivi na infância, lembro-me da paisagem que se configurava distante da área central. Fortaleza vivia nos anos 1970-80, uma avassaladora e repentina reestruturação de seu espaço urbano. Coube à política desenvolvimentista tardia implantar equipamentos nos corredores da cidade ligando o centro à periferia. E daí em diante, a malha urbana sofreu inúmeras ampliações e intercruzamentos, impondo aos habitantes se deslocarem a outros lugares. De onde saíram, a mercê de uma indenização que não pagava os juros de suas memórias e relações afetivas com o cotidiano daquele lugar, foram loteados os terenos e construídos conjuntos habitacionais cujas janelas não mais avistavam a paisagem natural, agora disciplinada pelo ferro e pelo concreto. As promessas de um reordenamento espacial da cidade punha em detrimento a horizontalidade dos encontros, para a vantagem da verticalização especulativa do lucro, ou do valor de troca que herdamos do trabalho alienado. O trabalho construtivo, daquele que a rua, o bairro e os lugares constituíam uma obra da história coletiva de seus moradores foi substituída pela uniformização e racionalização adversa aos seus sentidos e especificidades.

Vejo-me depois deslocado, dando um salto de 20 anos, para a baía de Guanabara, encimando a colina-mirante do Museu de Arte Contemporânea, em Niterói. Encontro-me por entre as vistas de 14 telas representando periferias metropolitanas, e um Golem de grandes dimensões entre elas. Imediatamente chama-nos atenção a ausência ou o anonimato dos sujeitos. São paisagens sem corpos. Somos então convocados a elas. A construção conceitual do artista nos afeta com um estranhamento ou uma espécie de insatisfação para com a imagem. Mas, ao mesmo tempo, se nos afasta também nos aproxima a experimentá-la. Nesta condição, a experiência real da corporeidade nos convoca a uma interseção de olhares e afetos. Na captura conceitual de Ana Francisca de Azevedo (2009), ocorre-me o trânsito entre um olho descorporizado para um olho incarnado, de uma geografia que segue além do olhar espectatorial, contemplativo, não pestanejante, para uma geografia corpórea de nostalgia. E nesta memória repentina da tela me traduzo como golem, como um homem-máquina, um homem apartado de seus aterfatos, donde as lembranças do subúrbio da infância - dos valores, atos e emoções vividos naquele espaço - foram alterados a uma cultura artificial do progresso e da racionalização da técnica. Aliás, conversando com Geertz (1978), aquilo que interpretava como artefato cultural da paisagem de minha infância vai se encarnando no maquinismo progressivo da cidade que me chega ao ritmo e na embriaguez da tecnologia triufante.


Esse céu que parece uma fumaça crepuscular vindo de alguma fábrica, faz recordar o perigo de avançar além dos novos limites ao redor da indústria de sabão que se instalara, de suas chaminés que substituíram a vegetação exuberante na qual me aventurava com os colegas em narrativas dos finais de tarde, cuja Natureza constituía uma forma simbólica de múltiplos sentidos. Mas tornei-me golem, num ser imperfeito e não desenvolvido - no dizer de Emile Zola (comentando O Golem, de Gustav Meyrink, 1914) -, nascido do sonho da humanidade sublimado na construção do mito da própria deficiência, das angústias da comunidade. O monstro de barro criado por Paul Vegener, em Der Golem (1920), constituíu no cinema, um preâmbulo ao anti-semitismo. Ironicamente, a própria história em torno do Golem, na sua versão literária, fora criada enquanto afirmação do povo judeu e símbolo da proteção (mítica) contra ataques anti-semitas. Enquanto monstros do barro medievais ou barrocos, avançamos em direção a frankesteins, clones, replicantes e cyborgs.

Nas distopias contemporâneas vêem-se as sombras de um futuro que se projeta como algo sombrio. Mas em favor da liberdade e de retornar ao estado de homem que sente uma existência que precede a razão, o homem-máquina leperino é convocado a voltar ao barro para construir autenticamente sua própria existência. Completaria Heidegger (1989, p.77): pode no seu ser ou escolher-se e conquistar-se ou então perder-se, ou seja, ou conquistar-se só aparentemente.

--------------------------
Referências
AZEVEDO, A. F. de. Desgeografização do corpo, uma olítica do lugar. In: AZEVEDO, A. F. de; SARMENTO, J. (orgs). Geografias do corpo: ensaior de geografia cultural. Porto: Figueirinhas, 2009.
GEERTZ, C. A interpretação dss culturas. Rio de Janeiro:Zahar, 1978.
HEIDEGGER, M. Ser e tempo. 3e. Petropolis: Vozes, 1989.
MEYRINK, G. El Golem, 1914 (Disponível em http://www.elortiba.org/bazavos2html - acesso em 10/10/2010.
SIMMEL, G. A metropole e a vida mental. Mana 11 (2): 577-591, 2005

domingo, setembro 26, 2010

Diálogo com Maya Da-Rin, sobre seu filme Terras.

Tem dias que somos tomados pela sorte. E não duvido que a temática circunscrita, apesar das relações esgarçadas da metrópole, sobre as fronteiras, se aproxime mesmo desta forma. Qual seja a de escalar muros de sal. Um pouco de água faz aplacar qualquer resistência, daí se desmorona o imenso muro da razão – esse monte salgado de previsibilidade. Dito de outra forma, o encontro com Maya é um encontro de águas. Tanto seu filme quanto sua prosa soa imprevisível a cada seqüência. Quais paisagens líquidas recuperam a memória depois daquelas texturas...

Ora de liquens, de raízes, de cascas de árvores; ora de peles, de terras urbanas, de sons ancestrais; também de gostos, de cheiros, de sinestesias; além das ruas, das formas e dos lugares. Afinal todas essas texturas falam de gentes se interpenetrando sem se confundirem; ou se misturando sem se preocuparem com heterogeneidades. No final há um branco a unir todas as cores. Entre dois entes, Letícia e Tabatinga, há um infinito de sensações: amarelas, negras; brancas, índias. Quisera ver os sonhos de Letícia; houvera crer nos pesadelos de Tabatinga. O esverdear de ambas nos olhos dos habitantes é uma constante do centro à periferia. São duas cidades que cabem numa só. A mata abraça-as. E os corpos abraçam a cidade como uma experiência sem limites.

Transição, suspensão, mistura – ela me diz. Mas um lugar rústico, imenso a causar impacto. Uma polifonia limítrofe; margem fronteiriça de múltiplas vozes. Por que os brancos dividem a terra? Pergunta aquela de olhos puxados. A terra é também nossa deusa. Completa a indígena com utensílios colonizados, além do facão empunhando a sabedoria das trilhas no labirinto da floresta. Maya-Câmera flagra a intimidade dos ritos e alcança o chá-de-quimera dos iniciados. Eles vêem os deuses conversarem sobre o futuro através de serpentes, de árvores e de cores. Se lhos perguntasse, o que haverá amanhã? Por certo responderiam, há um país entre nós; uma ponte de rio. Embora a geografia seja uma ficção dentro de um documentário.

Tudo está difuso na paisagem. Assim como estão difusas as fronteiras. Elas não terminam nas linhas divisórias. O começo de cada território é uma alma querendo habitar o mundo. E o fim de cada corpo é uma territorialidade movendo-se noutra. O que flui e reflui no espaço-tempo dos sujeitos é uma paisagem em movimento perene, ora centrífugo, ora centrípeto. Expande-se ao mesmo tempo em que se comprime essa mobilidade dos corpos. Metamorfose, metabolismo, meta-política, meta-geografia. Uma transformação mutante, tal caixeiro-viajante que percorre milhares de distância para reiniciar sua volta – um retorno de Ulisses no intento de deslindar os mitos, os silêncios e as cifras do mundo.

Foi tudo isso, Maya, que pude colher de sua prosa e de suas imagens.

terça-feira, maio 25, 2010

Monsieur-maçon et Mademoiselle-maçonne*



Janelas íntimas..


Significativo e imperioso – o amor é uma curva indefinida. Por isso não se sabe o que virá depois da sinuosidade. Meandros não obedecem aos juízos, às razões, nem se compreendem como emoções exatas. Há um discernimento obscuro entre Eros e Filos – a atração e a afinidade. São ondulações da alma. Basta uma janela e um olhar ferindo a paisagem. Além do vidro as cores só podem ser conhecidas na intimidade. Da janela desvelada, surge um quadro expressionista. Árvores e folhagens em turbilhão num campo desabitado.

Ventos esvoaçantes..

Os sentimentos convulsionados que todo amor predica. A partilha de um sonho numa tarde estranha. Dormindo ou acordado, qual arte reticente, deve-se duvidar novamente dos vidros e das dobradiças. Translúcidos ou opacos; ruidosas ou silenciosas; vê-se e ouve-se mesmo assim a melodia e a dissonância. Dois construtores entre pedras e palavras; entre o dito e o emudecido.

Música proibida..

Não poderia falar tão despida pelo arco lhe ferindo as cordas do maçon. Elgar e suas variações-enigma, disse-lhe, todavia, sobre árvores, janelas e ventos mais uma vez; coabitou-lhe os sentidos como invadindo-lhe a casa construída. Ambos pedreiros de uma mesma linguagem: l’amour. Somente a trolha por ela é substituída pela palavras friccionadas do violino. Embora proibido, o amor não se sente assim. Escuta unicamente e cala-se nos movimentos do desejo.

Trilhos ..

Restaria algo além de acatar a proibição, de deixar o trem seguir. A vida de tão conflituosa torna os amantes obedientes à cartilha dos costumes, dos “bons” costumes, ou terríveis, mesmo perversos. Os amantes interrompidos sobre os trilhos, sob a aura de seus sentidos. Segue o tempo no ranger de suas almas apartadas pelo mesmo vento que as uniu. Delicadeza e brutalidade – o tempo sem o vento. O tempo de chegar, o vento de partir – impiedosos.

*Impressões livres sobre Mademoiselle Chambon, filme de Stéphane Brizé (2009) –Em Mademoiselle Chambon, Jean (Vincent Lindon) é uma pessoa do bem: um bom rapaz, um bom filho, um bom pai e um bom marido. E no seu cotidiano tranquilo, entre família e trabalho, ele cruza o caminho de Mademoiselle Chambon (Sandrine Kiberlain), a instrutora de seus filhos. Ele é um homem de poucas palavras, ela vem de um mundo diferente. Eles irão se surpreender pela evidência de seus sentimentos.

sexta-feira, abril 23, 2010

O segredo de seus olhos

Há noites que ventam mais, é quando nos recolhemos em casa. Estamos cansados do dia que pareceu-nos vazio. Como se pode viver uma vida cheia de nada, nos perguntamos. Um turbilhão de imagens nos escurece a vista. Estamos presos ao passado: damo-nos conta disso; de olhar para um feixe de lembranças, embora de tão vivas se escapem num tempo incerto. O ontem pode ser tão longe ou tão perto. Perdemos a noção da duração das coisas, e os sentidos se resvalam num romance nem sempre verossímil. Por que não me levou contigo? Bate renitente o vento cobrindo a cortina, por que não me levou...

Quando nosso olhar nos dizia tudo por não calar; por não olvidar de nos inquirir – o que faremos, eu e você; por nos excomungar das regras do mundo; por nos sorver da alma os receios; por amar o que se deveria; por brincar nas pontes e querer saltar montanhas; por, enfim, querer consumir o tempo num segundo, em duas palavras, sem temor, sem dizer que o "temo" – mas com um “a” no meio, entre "te" e "mo".

Já não sei se é uma lembrança de ontem ou de muito tempo. Quem era você? Como era? Era jovem, era jovem, mas era a mesma pessoa. Minha vida foi olhar para trás. Creio que me diria hoje: que “mi vida entera fue mirar para delante. Atrás no es mi jurisdicción; me declaro incompetente”; que sua vida inteira foi de eliminar os dias de minha ridícula apreensão.

O que temos a oferecer neste tempo incomum? Uma dialética a buscar tergiversando uma síntese sem tempo e sem piedade. Na estação, os trens chegam e partem. Nos vagões, em cada janela observo para te ver chegar. Minhas dores estão livres, e meus olhos me perguntam sobre os seus.

[Impressões sobre o filme El segreto de sus ojos, Juan José Campanella, 2009]

sábado, abril 03, 2010

Enquanto o Sol não vem

Retorno ao Imago Mundi com novos ares. Mudando residência para o Rio de Janeiro, é hora de aproveitar as excelências de uma estimulante agenda cultural. Para inaugurar a peregrinação nas inúmeras redes de multiplex da capital fluminense, escolhi o CineMark - Downtown, na Barra. Para minha surpresa estava em exibição um filme da cineasta francesa Agnès Jaoui, Enquanto o Sol não vem, de 2008 (Parlez-moi de la pluie). De Jaoui já havia me sensibilizado em sua obra anterior premiada em Cannes, Questão de Imagem, que será oportuno comentarmos noutro momento. Mas agora devo aproveitar a degustação recente das imagens de Enquanto o Sol não vem. Farei uma sinopse seguida de impressões sobre o filme.

* * *
Agathe Villanova, uma feminista recém-ingressa na política, retorna à casa de infância no sul da França, ajudando a selecionar com sua irmã Florence os pertences de sua mãe, que morreu há um ano. Nesta casa vivem Florence, seu marido e seus filhos. Mas também Mimouna governanta, que Villanova trouxe de volta com eles da Argélia, na época da independência. O filho de Mimouna, Karim e seu amigo Michel Ronsard decidem fazer um documentário sobre Agathe Villanova, como parte de uma coletânea documental de mulheres que venceram na vida. É o mês de agosto. É cinzento, chove. Não é normal. Mas nada vai acontecer normalmente! Todos esperarão a chuva passar, considerando o retorno da primavera na vida de cada personagem.

A diretora, roteirista e atriz Jaoui, que sempre divide o roteiro com seu marido Bacri, longe das grandes produções que engole orçamentos e pipoca, seus filmes fazem parte de uma perspectiva humanista. Eles falam sobre nós, ocidentais, e mais particularmente do comportamento dos franceses aos problemas políticos e pós-colonização que vivem. A chuva não é uma exceção à regra. Depressão, outro tema recorrente em seus filmes, é interpretada por Jean-Pierre Bacri, personificando um jornalista desempregado, provocando-nos o filme a examinar o que somos e o que pretendemos ser. Karim interpreta alguém que foi capaz de livrar-se das divisões de classe na sociedade. Filho de uma empregada assediada por seu marido, ele quer ir mais longe, e não apenas correr riscos. Ele quer fazer um filme sobre o que vê como a síntese da hipocrisia social. Da mesma forma, Agathe Villanova interpretada por Agnes Jaoui, finalmente percebe que seus desejos foram motivados por uma espécie de carreirismo e que, finalmente, há mais vida para além do que ela esperava. Deixa-se descobrir um pouco conservadora, apesar de feminista, percebendo que o amor é mais forte do que qualquer coisa. O filme nos traz os pensamentos que vão além do filme. Não apressando o espectador, Jaoui leva sua câmera mais próxima aos seres humanos na sua mais frágil e mais preciosa intimidade ante as verdades que devem ser enfrentadas. E quanto mais nós rimos do começo ao fim eles continuam a falar sobre a chuva! Uma pedra preciosa. Uma esperança de renovação.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Kósta pintou o corpo de Kriska

Pois. O Chico falou do amarelo de Budapeste. Eu vos falo, sereníssimo(a) leitor(a), de um Danúbio cor de prata. Pareceram-me prateados os textos do ghost-writer. Fantasmas escrevem para si mesmos como a lua que brilha sob a distância devida ao Sol. Como se falará húngaro em 2012? (Roland Emmerich que se f..). No mínimo a cor do rio mudará mais uma vez desde outros Rios. Kósta e Kriska. Eles como sélene e hélios, respectivamente, rirão das páginas em branco de Walter Carvalho. Há mesmo muitas lacunas de sensações nas seqüencias do filme. São espaços invisíveis por trás do esteticismo de imagens "fofas"... Imagens assim são como algodão dôce: come-se mas não se farta. O açúcar. Melhor o melaço-azedo das pitangas pingando gotas de sangue. (Não se preocupe, não haverá alusão aos vampiros de Forks, nem aos da Transilvania..). Mas como se falará mesmo húngaro em 2012? Zsoze Kósta pintou o corpo de Kriska. Eis porque Budapeste mudou de cor. Dê-lhe a devida cor de um anônimo. Mais uma vez surge-me como argêntea sua imagem. Pobre Kósta. Nem lhe interessaria as sete profecias maias. "Maia", ou "ilusão", é o mundo. Ele leu nos olhos de Kriska a lua imensa ocultada na Gênesis judaica. Restou a óbvia maçã e a serpente esquisita na queda da alma. O homem-Kósta e a consorte-Kriska uniram-se em cordões de prata. Seus corpos inscreveram-se, ou deveriam ter se inscrito nas palavras que Chico recomendou: absoluto anonimato. E como eles falarão húngaro em 2012? Já respondo. Comerão do mundo outras línguas. Outras línguas são: incerteza e amor; amor e incerteza. Nestas duas ordens. É certo que o amor é provado no corpo. Mas o corpo não experimenta tudo que do amor é provado.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Irineu piscou o olho!

Uma quinta-feira. Poderia ter ficado em casa assistindo ao jornal ou lendo os livros que comprara durante a tarde. Mas não deixaria de testemunhar a importância daquela noite. Quase uma hora e meia de atraso. O público esperava pelo livro do Irineu.. O Cariri e seu Instituto Cultural esperavam o lançamento fac-símile de uma publicação esgotada. A espera era justa. Francamente, não me queixei da espera, porque todos aguardavam benevolentes o afamado livro, incluindo personalidades intelectuais e políticas, e também figurões passantes, e voyeurs movidos pela divulgada raridade da obra. Senti-me como um paciente bibliófilo na expectativa serena de registrar, ao chegar em minha reservada biblioteca, o "ex libris" na folha de rosto da publicação -- o que seria um ilustre em minha estante! O convidado principal mostrou-se, em sua humildade política, um editor sensível. Cumpriu bem o seu papel, destinando aos anfitriões uma tribuna de agradecimentos. O dr. Lúcio teve, pareceu-me naquela sua fala, o detalhismo de um Gutemberg, embora tenha esquecido de apresentar a nova edição da obra do doutor cratense. O olho de Irineu piscou no quadro, dizendo: "Estou aqui!". Mas ouvi outros sobrenomes: menos os Nogueiras e Pinheiros. E naquele instante das repetidas nominatas entrei em suspensão, ou melhor, abstraí longe dalí. Perguntava-me, "onde estará o cacique Araripe; ele mesmo existiu? Trombas d'água na chapada, ouvi. Índios fujões escondendo-se nas matas, e o frei Carlos Ferrara ensinando o ABC àqueles "bárbaros" catequizados". Caí da nuvem dessas imagens aos primeiros aplausos. Eram sacolas de livros presenteadas aos representantes convidados, embora não vi livro nenhum, nem sequer a capa! A Universidade não se sentou à mesa com o Alcântara... Mais uma vez perguntei-me, que fazia naquele augusto sodalício? Um confrade que não teria o prazer de degustar O Cariri, de Pinheiro. Uma longa espera desde 1930. Invejei naquele momento o José Lins do Rêgo, pois ansiava devorar com o mesmo folego as páginas do filho de D. Irineida.

sexta-feira, maio 22, 2009

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

O "absoluto realismo"


Há cobranças válidas. Uma delas justifica-se por nascer com o espírito da arte. As demais são adjacentes à alma posto que há um abismo entre a realidade e a fantasia -- estas duas faces da vida. Validada a cobrança da fantasia, da imaginação, da arte da memória em criar representações, é-nos pesarosa a realidade. Dito de outro modo: quais cobranças são necessárias à realidade se à imaginação somos absolutamente livres? E ser livre é não envelhecer os sonhos.

* * *

Dois seres que se beijam pela primeira vez. Naquele filme antigo visto há tempos; naquele dejà vu; naquele espaço expandido do quadro, propício a múltiplos sentidos; naquele firmamento da fotografia, alterado. Eles se beijam sem cobrar das cores e dos cortes do tempo e do espaço a realidade.
* * *

Cá pelos Trópicos só há a monotonia de uma estação. Verão seco. Verão úmido. Verão chuvoso. Verão sempre. Mas o Sol nada cobra daqueles que sonham com o Inverno. As outras estações ainda inexploradas -- sem flores, sem folhas caducando nas ruas -- são contigentes na alma; alma a mudar sempre de estação.

* * *

Só para dizer que os filmes são cobranças válidas. Há verdades neles. São verdades exploradas na imaginação. Imaginar é ver com os olhos da alma a realidade desejada. O absurdo humano é ser cobrado por quase nada; pelo que a vida soberbamente nos aplaca da paixão. Paixão é uma fada que pergunta: que deseja?

* * *

"O 'absoluto realismo' do cinema é uma não realizada, logo potencial, magia" [S. Brakhage]

sexta-feira, maio 02, 2008

Era um campo de capins soluçantes


Passeava pelo “L’Amore in Cittá” quando a reencontrei. Era tarde chuvosa por todo o campo, cujos capins soluçavam após pegadas de pássaros saltando vôo. Os amantes novamente frente a frente em “Un Agenzia Matrimoniale”. Uma sala de indecisos e buscadores de sonhos. Imagens de esperança em terra movediça. Imagens só lidas em romances. Um neo-realismo à flor da pele. Fellini não via filmes, porém capturara o sentido de nosso vôo incompleto. Pobres passos perdidos na licantropia de uma fera sem bela; de uma ferida sempre a querer sarar com sais de cogumelos raríssimos. Os capins bordejavam a vida entre nossos dedos se nutrindo de desejos e de temores e de luas.

Sabia que podias me curar da inquietude dos dias, da arte que me escapulia dos sentidos para arremessar em tuas mãos os limites da noite. A lunação, imprevista, interrompia o percurso de mais um dia – daquelas horas congeladas no acostamento da estrada.

Escorregamos em palavras com as mãos perdidas no ar. Rimos ou talvez gritamos desassossegados. Aguardamos o vento balançar mais uma vez os capins ondulantes. E uma casa perdida no ponto de fuga da perspectiva acariciava a distância que se resvalava no destino.

Não soubemos ser feitos de sonhos. Numa realidade esquisita os sonhos são sempre começos absolutos. Nossas mãos, relativas com o ar, outra vez gravitaram como ditirambo nem alegre nem triste, sem corifeu e sem fauno. Olhos percorrendo o prado, assim ficamos até aquela noite cair de vez na cidade.
Impressões sobre "L'Amore in città (1953) (segment 'Agenzia matrimoniale, Un' - de Federico Fellini)"

terça-feira, janeiro 29, 2008

Cultura & Cinema - coluna 29.01.08



Budapeste na telona

É intrigante conhecer tão bem um lugar sem nunca tê-lo percorrido. "Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela." Dessa forma Chico Buarque vai nos apresentando Budapeste numa reinvenção entre a ficção fantástica e a realista. Lembra-nos a mesma façanha empregada por José de Alencar em seu O Gaúcho, romance que escrevera sem nunca ter ido aos pampas no Sul do país. A prosa de Chico é um convite às percepções que, afora a erudição deliciosamente presente nas entrelinhas do texto, arvoram-se em imagens econômicas mas evocativas de um realismo originalíssimo. Depois do interregno de cinco anos, a obra literária vai se tornando filme sob a batuta de Walter Carvalho como seu primeiro longa-solo de ficção. A estréia de Budapeste deverá ser no final do ano ou início de 2009. O roteiro é assinado por Rita Buzzar, também produtora, que contou com a colaboração de Chico. As filmagens em húngaro estão marcadas para fevereiro, com a participação de atores europeus (Andras Balint, Hungria; Antonie Karmeling, Holanda; e Ivo Canelas, Portugal). Leonardo Medeiros, o protagonista, tem aprimorado os estudos da língua magiar há três meses. Uma curiosidade, é que a capital húngara foi formada pela fusão de três cidades às margens do Danúbio: Buda, Ôbuda e Peste, no que resultou em Budapeste. Quem sabe num futuro próprio, depois da fusão de nossas três principais cidades caririenses, teremos o filme Crajubar!