quarta-feira, julho 26, 2006

a alquimia de sabina

Imagine-se no lugar de uma alma feminina com surtos de histeria grave e vestígios de esquizofrenia. Na tenra juventude de dezoito anos, internada pelos pais no renomado hospital psiquiátrico Burgholzli, em Zurich, capital suíça, em princípios do século XX. Imediatamente você passa a ser tratada por uma terapia nova, baseada na associação de palavras, método desenvolvido pelas investigações freudianas. Em poucos meses cura-se da crise, embora alimentada por uma paixão irremediável a seu médico.

Seria apenas um caso típico de transferência positiva, segundo o jargão psicanalista, esse amor sanando sua psique? Foi possível conceber sua cura por uma projeção de conteúdos inconscientes numa relação afetiva? Parece que sim, depois de uma relação amorosa intensa, apesar do desejo interrompido de não realizar a maternidade com seu terapeuta-amante. Um filho que esse amor lhe premiasse era muito importante para você, embora tendo que compreender as dores do parto de um amor inconcluso. Restabelecida, em parte, sob a recusa de efetuar com ele a integração preterida, sua vida prossegue tendo como referencia esse episódio de cinco anos em sua vida.

Você se chama Sabina. Sabina Spielrein. Seu médico, Carl Gustav Jung.

Peço licença, agora, para pintar um quadro simbolista sobre sua história, se a compararmos com uma alquimia. Uma alquimia de Sabina. As metáforas são boas para se saber das imagens formadas no vidro da janela, e não das que estão na paisagem; das coisas que podemos ver de novo modo ou sentido, sem necessariamente tê-las que substituir por outras aparentemente semelhantes. Ortega y Gasset que o diga com sua arte desumanizada. Não que você, Sabina, seja desumana, mas que seu afeto e carisma puderam percorrer uma jornada diversa na alma. Sua viagem profunda não foi em vão. Seu amado Jung também a quis entender posteriormente como metáfora alquímica da alma.

Seu terapeuta-amante descobriu que o problema central da psicologia é a integração dos opostos, que resultaria na individuação ou realização anímica do indivíduo. O que é muito claramente percebido na Alquimia. A realidade das operações alquímicas é psicológica, e aparentemente física. Na linguagem dos alquimistas a matéria, ou alma, deve ser transubstanciada desde sua densidade caótica, e dispersa, à sua leveza e sutileza integrada. Foi certamente com você, Sabina, que Jung primeiramente percebeu que o encontro de duas personalidades é semelhante a mistura de duas diferentes substâncias químicas: uma ligação que pode a ambas transformar.


PS: É possível apreciar um pouco dessa alquimia no belo texto visual de Jornada da alma (Prendimi l'anima, 2002), de Roberto Faenza, com a visceral interpretação da inglesa Emilia Fox (como Sabina). E naquela balalaica proibida, perdoada pela história...

Um comentário:

Fada disse...

Tumbala tumbala tumbalalaika...

7 vezes ótimo, este filme (!)
E Nietzsche completaria: "Aquilo que é feito por amor faz-se sempre para além do bem e do mal".
Além desta fronteira há a alquimia.


"Senhora, senhora, me diga novamente
O que pode crescer, crescer sem a chuva?
O que pode incendiar durante muitos anos?
Quem pode ansiar e chorar, sem lágrimas?

Tolo rapaz, por que ainda pergunta?
É a pedra que cresce, que cresce sem chuva.
É o amor que pode incendiar por anos.
É o coração que pode chorar sem lágrimas..."