sábado, julho 15, 2006

eXistenZialismo


Depois de assistir ao último filme de D. Cronenberg, "eXistenZ", é difícil de se reconectar ao "real". A realidade virtual experimentada pelos personagens resignifica o sentido da "existência". Um real metamorfoseado de ilusão, de simulacro, de "maya"; um virtual justificado pela existencia do paroxismo de indivíduos esquizos e convulsos. Imagens de mundo a cada instante que se renovam. Entre as incertezas da realidade, um sentimento de vazio desestabilizador de qualquer "atualidade". Tempo dissolvido num espaço que não se consorcia necessariamente com o real. Realidade virtual ambientada no artefato-homem-bio-cyber. A metafísica do virtual como o "soma" entorpecente num admirável mundo novo.

Há filosofia para o virtual? Sartre negando qualquer metafísica, entendia a existência anterior ao conhecimento. Para seu existencialismo agnóstico, não há nada além da morte. Estamos condenados a ser livres, diz o filósofo, embora a liberdade do homem moderno não tenha ainda se resolvido -- homem que anda transformado quase irreversivelmente pela tecnologia. O "eXistenZ" crononberguiano antecipa esse império do virtual; é um ensaio dessa modalidade mutante do existencialismo. Sem condenações, sem revoltas. Tudo é natural ao jogo. A vida é como um jogo. Primitivismo e tecnologia. A revanche da Natureza. Reino da mutação, templo do prazer, paraíso artificial e desencantos por segundo. É a nova Natureza, mãe de todas essas indeterminações.

Conectar-se nesta realidade virtual naturalizante por "bio-portas" faz o homem em simbiose com o próprio artefato tecnológico, para que volte digitalizado sem noção de nenhuma realidade. Realidade descontrastada que seja, (des)velada de multi-egos; nada "inconsciente", em tudo aflorada pelo torpor da "naturalidade". Um caos organizado.

2 comentários:

Fada disse...

E vem questionar o fator existencial do que vale este pontapé cybernético... Muito bom começo para ótimas palavras.

Há mesmo que se temer - de fato e fatalmente (rs) - Maya e seu véu de entorpecimento...Seja em qual plano for.
Por isso também é que já estou a anotar este filme em minha lista. rsrs.

Ramon de Alencar disse...

...
E a realidade que nos cerca é apenas o produto destes trinta bilhões de neurônios, a comungar suas sinapses entre si, através de uma tempestade elétrica de neuro-transmissores, que escrevem na bainha dos nervos, todas as letras codificadas num virtualismo de tudo daquilo que o cérebro quer conceber através dos cinco sentidos.

E buscamos pois, um sentido a isso que nos aparenta não ter sentido algum...