sábado, julho 29, 2006

Notas do subsolo [1] – O “Código” mais uma vez

É costume se ouvir, entre os mais incautos, a seguinte exclamação: "o livro é muito melhor que o filme!" Vamos tomar um exemplo recente. O mais badalado produto da mídia de 2004 em diante, ora amado ora odiado, o "Código da Vinci" de Dan Brown.

Depois de dividir opiniões entre católicos, leitores do pseudo-esoterismo new age; e de tumultuar o imaginário da simbólica cristã, sedimentada e preservada há mais de dois milênios pela Igreja; e depois de levar ao tribunal o autor dessa trama ficcional especulativa, e de sucesso de vendas, acusado de plagiar as idéias de outros três autores da obra anterior “A Linguagem Secreta do Graal”; depois de tudo isto nos perguntamos o que há de tão extraordinário neste livro a ponto da indústria americana de cinema adaptar para a telona, a custo de milhões de dólares, as especulações grosseiras sobre o mistério do Graal e os desdobramentos deste símbolo. Nem possuímos a verdade, e nem desejamos discutir sobre aspectos metafísico-religiosos em torno do Graal. Queremos apenas nos deter no seguinte: trata-se simplesmente de um livro de ficção, e como tal foi adaptado ao cinema a exemplo de centenas de outros.

Voltemos ao Código. Um romance tipicamente policial acrescido de dados históricos e com uma “surpresa” para o grande público, a de que Cristo teve uma linhagem com Maria Madalena, sendo ela o próprio símbolo do Graal. De fato, a curiosidade pela massa sobre essa tese ousada no romance é um prato cheio para mais e mais especulações. Em todo romance policial, o que importa é a intensidade, nada mais, mesmo que os dados estejam alterados ou manipulados para o encadeamento do enredo desejado. Melhor seria degustar os clássicos de Simenon, com o detitive Maigret, ou saborear o maravilhoso “O Silêncio da Chuva” do brasileiro Alfredo Garcia-Roza. Segue outra boa dica: os não menos intensos e inteligentes policiais-noir de John Dunning, com seu detetive bibliófilo. Tais romances pelo menos não preferem autenticar o que não lhe são de competência. Apenas dedicam-se a um gênero de literatura com a acolhida de um público cativo. O Código bem que poderia ser um romance policial como outro qualquer.

Francamente, seja o livro ou o filme, não vejo neles nenhum legado artístico importante. Aliás, nem podemos comparar a literatura com a linguagem cinematográfica. São linguagens bem distintas. Mas no caso do Código, que Da Vinci o perdoe em sua magnitude artística, só tenho a dizer que tanto o livro quanto o filme são muito pobres do ponto de vista da linguagem. No entanto, para a academia holywoodiana o filme foi uma boa oportunidade de contar uma estória com início, meio e fim, com cada clímax previsível, o que ela melhor sabe fazer.

Tomara que Audrey Tautou não venha a ser canonizada pela academia por essa parca atuação. E se os americanos gostam de inventar e brincar de deuses, lamentavelmente não conseguiram fazê-la andar sobre as águas.

Um comentário:

Fada disse...

É... Antes canonizar Amélie Poulain!
rsrs